A história tem uma forma peculiar de se repetir no futebol. Há seis décadas, Garrincha — o ponta-direita brasileiro cujos dribles deixavam os defensores sem resposta — recebeu um cartão vermelho durante as semifinais da Copa do Mundo de 1962 após agredir um adversário. Na época, não existia suspensão automática de partida, por isso um painel disciplinar se reuniu na manhã seguinte para deliberar sobre o seu destino. Segundo relatos amplamente divulgados, o assistente com a melhor visão do incidente foi subornado e desapareceu, enquanto o chefe de Estado do Chile entrou em contato pessoalmente com a FIFA para defender a clemência, citando o valor que o jogador trazia ao espetáculo. Garrincha saiu impune e o Brasil conquistou seu segundo título mundial pouco depois.
Esse episódio há muito foi arquivado no folclore do futebol — uma relíquia de uma era mais caótica e menos responsável. No entanto, os acontecimentos do fim de semana sugerem que a distância entre aquele tempo e o presente pode ser mais curta do que muitos gostariam de admitir. Antes de a seleção masculina dos Estados Unidos entrar em campo para o jogo das oitavas de final contra a Bélgica, veio à tona que Donald Trump havia feito múltiplas ligações para Gianni Infantino, pressionando o presidente da FIFA a encontrar um mecanismo para reverter a suspensão de um jogo imposta ao atacante americano Folarin Balogun.
O incidente com Balogun
A expulsão de Balogun ocorreu durante a vitória por 2 a 0 da USMNT sobre a Bósnia e Herzegovina na fase de grupos. O atacante pisou acidentalmente no tornozelo de um adversário enquanto disputava a bola — um momento que, após revisão, resultou em cartão vermelho direto. A decisão foi controversa desde o início. Mauricio Pochettino, o técnico da seleção americana, expressou publicamente sua frustração, assim como o próprio Balogun e uma ampla gama de comentaristas que analisaram as imagens e concluíram, em sua maioria, que a punição era desproporcional à intenção. Os torcedores americanos ficaram furiosos, mas a maioria foi gradualmente se conformando com a perspectiva de enfrentar a Bélgica sem sua opção ofensiva mais perigosa.
O cartão vermelho havia sido revisado e confirmado pelo processo do VAR, o que tornava a cadeia de eventos subsequente ainda mais extraordinária. Uma expulsão ratificada pela tecnologia de vídeo, aceita — ainda que a contragosto — pelo jogador e pela comissão técnica, e lamentada por toda uma torcida, estava prestes a ser revertida não por nenhum canal de apelação convencional, mas pela intervenção direta de um chefe de Estado em exercício.
Uma reversão sem precedentes
A US Soccer já trabalhava nos bastidores para contestar a suspensão por vias oficiais, mas a intervenção de Trump acelerou consideravelmente os acontecimentos. Em pouco tempo, a suspensão de Balogun foi colocada em espera até o encerramento do torneio. A FIFA enquadrou a medida citando uma cláusula específica de seu próprio regulamento, observando que adiamentos semelhantes haviam sido concedidos a um pequeno número de jogadores — entre eles Cristiano Ronaldo — cujas suspensões haviam se acumulado antes do início da competição. Aplicar essa mesma lógica no meio do torneio, no entanto, representava um afastamento de qualquer precedente estabelecido.
Os dirigentes da FIFA, quando questionados por jornalistas sobre as supostas ligações telefônicas de Trump, desviaram o assunto argumentando que a natureza estrutural de seus procedimentos disciplinares os protege de pressões externas. O órgão governante não ofereceu nenhuma explicação substantiva sobre por que esse caso específico merecia tratamento excepcional, além de apontar para o artigo regulamentar pertinente. Essa resposta não satisfez praticamente ninguém. A imagem de um presidente americano em exercício fazendo lobby junto ao chefe do futebol mundial — um homem que havia recebido anteriormente um “prêmio da paz” da FIFA — e obtendo um resultado favorável em questão de dias era impossível de ignorar.
Reações de todos os lados
Pochettino expressou alívio e satisfação ao falar com os repórteres no domingo, deixando claro que recebia bem a reversão. A reação do lado belga foi marcadamente diferente. O técnico Rudi Garcia disse à imprensa que não sabia que o Dia da Mentira podia cair em julho, um comentário que captou a incredulidade sentida em grande parte do mundo do futebol. A Federação Belga de Futebol anunciou que estava examinando suas opções legais em resposta à decisão.
O técnico da Noruega Ståle Solbakken ofereceu talvez a avaliação mais contundente, falando após a surpreendente vitória de sua equipe por 2 a 0 sobre o Brasil. “Acho que é um grande erro da FIFA“, disse ele. “Má, má, má, má, má decisão. Sinto pena dos Estados Unidos, porque mesmo que vençam, o jogo sempre terá essa coisa ruim. Não é bom para o esporte.” Suas palavras repercutiram amplamente, articulando uma preocupação que ia muito além da partida imediata.
Um triunfo manchado
A USMNT havia chegado à fase eliminatória por mérito próprio. Três atuações sólidas e uma mais modesta os conduziram pela fase de grupos, com Balogun amplamente considerado o melhor jogador individual ao longo dessas quatro partidas. Mesmo na sua ausência, uma parcela significativa de analistas e casas de apostas havia classificado os americanos como favoritos contra a Bélgica. O ponto, no entanto, não é se os EUA teriam vencido de qualquer forma — é que a maneira pela qual a disponibilidade de Balogun foi restabelecida lançou uma sombra sobre qualquer resultado que se seguisse.
Essa sombra cai de forma diferente dependendo de onde se está. Dentro dos Estados Unidos, a reação se dividiu entre os que simplesmente ficaram felizes por ter seu atacante disponível e os que reconhecem o custo reputacional. Internacionalmente, o episódio alimenta uma percepção — justa ou não — de que as estruturas de poder americanas esperam que as regras se dobrem a seu favor. Para uma torcida que passou anos rejeitando a ideia de que os EUA são um país de futebol de segunda categoria, uma vitória conquistada nessas circunstâncias corre o risco de ser descartada como algo que não foi ganho em campo.
O quadro mais amplo
Esta Copa do Mundo havia, até este momento, conseguido em grande parte superar as controvérsias que ensombraram sua preparação. Preocupações com preços elevados de ingressos, complicações com vistos, deficiências logísticas e o possível desdobramento de agentes de controle de imigração próximos aos estádios haviam sido levantadas nos meses anteriores. Alguns desses temores se confirmaram — o tratamento sofrido pela seleção nacional do Irã é um exemplo particularmente perturbador — mas a narrativa geral em torno do torneio havia permanecido amplamente positiva.
A intervenção de Trump introduziu agora um tipo diferente de mancha. No domingo, ele recorreu à sua plataforma Truth Social para celebrar o retorno de Balogun, agradecendo à FIFA por corrigir o que descreveu como uma “grave injustiça”. A ironia é que, ao tentar corrigir uma injustiça percebida, ele pode ter cometido uma muito mais grave — não contra um único jogador ou uma única partida, mas contra a credibilidade da própria competição. A relação entre Infantino e Trump há muito é caracterizada como mutuamente vantajosa: Trump recebe a adulação e a visibilidade que busca, enquanto Infantino garante acesso ao mercado comercial mais lucrativo do mundo. O que nenhum dos dois parece ter ponderado plenamente é o custo que esse acordo agora impõe ao esporte que ambos afirmam defender.

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