O caminho da Argentina rumo à glória na Copa do Mundo quase chegou ao fim em Atlanta, onde Lionel Messi e seus companheiros se viram dois gols atrás com apenas dez minutos restantes. O que se seguiu foi uma das viradas mais extraordinárias da história do torneio — um final frenético e emocionante que deixou jogadores e torcedores de ambas as equipes em estado de incredulidade.
O capitão de 39 anos, que já havia sofrido a humilhação de perder dois pênaltis no mesmo torneio, recusou-se a deixar o sonho de sua nação morrer. Sua intervenção nos minutos finais não apenas salvou o resultado, mas também ampliou seu próprio legado nas Copas do Mundo de maneiras que poucos poderiam ter antecipado.
O domínio inicial do Egito
A equipe de Hossam Hassan chegou a Atlanta carregando o impulso de uma histórica vitória nos pênaltis sobre a Austrália, e jogou com uma ousadia que imediatamente colocou os campeões mundiais na defensiva. Desde os primeiros momentos, o Egito pressionou alto e criou perigo em bolas paradas, com Leandro Paredes obrigado a intervir cedo para afastar um perigoso tiro livre de Marwan Attia.
O gol chegou aos 15 minutos. Mohamed Hany ganhou um escanteio, e o cruzamento de Attia foi recebido com uma cabeçada poderosa de Yasser Ibrahim, que saiu em comemoração enquanto o banco egípcio explodia de alegria. Os Faraós, que nunca antes haviam vencido uma partida na fase final de uma Copa do Mundo em três tentativas anteriores, estavam à frente dos atuais campeões.
A resposta da Argentina foi desorganizada e pouco convincente. Messi foi cobrar um pênalti após Haissem Hassan derrubar Nicolás Tagliafico dentro da área, mas seu chute foi fraco demais e Mostafa Shobeir fez uma defesa tranquila. Era a segunda vez neste torneio que o capitão argentino havia falhado da marca dos doze metros — uma estatística que teria parecido impensável apenas alguns meses antes.
O brilho de Shobeir e o segundo gol do Egito
O goleiro egípcio foi o protagonista indiscutível do primeiro tempo. Shobeir, que havia deslocado recentemente o veterano Mohamed El Shenawy da titularidade em seu clube Al Ahly, realizou uma série de defesas extraordinárias que mantiveram a Argentina à distância. Uma finalização de perto de Alexis Mac Allister foi desviada, um tiro livre com efeito de Messi acertou a parte externa da trave, e uma tentativa de curta distância de Julián Alvarez — servido por Tagliafico — foi de alguma forma defendida.
Era a primeira vez desde a derrota nas quartas de final para a Alemanha em 2010 que a Argentina chegava ao intervalo perdendo em uma partida de Copa do Mundo. A equipe de Lionel Scaloni havia sido alertada após uma difícil rodada anterior contra Cabo Verde, mas não havia aprendido com a lição.
O segundo tempo trouxe mais sofrimento. Haissem Hassan avançou pela esquerda e Mohamed Salah entregou um passe preciso para Mostafa Ziko — cujo nome presta homenagem à lenda brasileira — finalizar contra Emiliano Martínez. O VAR havia anulado anteriormente um gol semelhante de Ziko por uma puxada de camisa de Attia em Lisandro Martínez no início da jogada, mas desta vez não houve escapatória. A Argentina perdia por dois gols com o tempo se esgotando.
A virada: Romero e Messi entram em cena
Com onze minutos restantes e a perspectiva de uma eliminação sem precedentes se aproximando, Messi executou o cruzamento que mudou tudo. Cristian Romero o recebeu com precisão para diminuir a desvantagem, e o rugido do estádio transformou completamente a atmosfera. A Argentina, de repente revigorada, avançou com urgência renovada.
Quatro minutos depois, chegou o empate. O Egito não conseguiu afastar a bola e quando ela caiu para Messi na entrada da área, havia uma sensação de inevitabilidade sobre o que viria a seguir. Shobeir alcançou o chute com as duas mãos, mas não conseguiu impedir que cruzasse a linha. Era o 21º gol de Messi em Copas do Mundo e o oitavo neste torneio — colocando-o um à frente de Kylian Mbappé e Erling Haaland na artilharia.
O capitão argentino tornou-se o primeiro jogador na história da Copa do Mundo a marcar em seis partidas consecutivas de mata-mata. Um Messi em lágrimas foi jogado para o alto pelos companheiros após o apito final — um momento de pura alegria que encapsulou o peso emocional da ocasião. Scaloni, que havia falado antes da partida sobre sua equipe estar “em alerta”, ficou tão emocionado que não conseguiu terminar a entrevista pós-jogo.
O gol da vitória e a fúria egípcia
O drama ainda não havia terminado. Mohamed Salah perdeu a bola em uma zona perigosa, e ela acabou chegando a Enzo Fernández, o meia do Chelsea, que direcionou uma cabeçada para as redes a partir do cruzamento de Lautaro Martínez. Os jogadores egípcios imediatamente cercaram o árbitro, convictos de que havia ocorrido uma falta na jogada, mas o gol foi confirmado.
Os Faraós tinham motivos adicionais de queixa mais cedo na partida, quando o VAR anulou o primeiro gol de Ziko com base em uma falta que havia ocorrido mais de 30 segundos antes de a bola entrar na rede — uma decisão que gerou amplo debate sobre a aplicação das regras.
Apesar da derrota, a atuação do Egito representou uma declaração significativa. A ligação familiar de Mostafa Shobeir com o torneio é profunda — seu pai Ahmed foi o goleiro dos Faraós na Copa do Mundo de 1990, e suas táticas de perda de tempo naquela época contribuíram para a introdução da regra do recuo ao goleiro. O jovem Shobeir esteve a um passo de escrever um capítulo muito mais triunfante nessa história.
Nenhuma equipe na história da Copa do Mundo havia se recuperado de uma desvantagem de dois gols tão tarde em uma partida. A sobrevivência da Argentina foi notável, seu alívio palpável — e para Messi, agora com 39 anos, foi mais um lembrete de que sua capacidade de entregar nos momentos que mais importam permanece inabalável.

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