Numa das eliminações mais dramáticas da história recente do Mundial, o Paraguai eliminou a Alemanha do torneio em Boston através de uma série de grandes penalidades que ficará na memória pelo caos, pelos remates falhados e pela tensão extraordinária. Foi a primeira vez que a Alemanha perdia uma série de penalidades desde o momento original do Panenka em 1976, e a forma da derrota — uma cascata de erros e oportunidades desperdiçadas — tornou-a ainda mais chocante. De acordo com as informações disponíveis, o jogo desenrolou-se como uma obra-prima de resiliência defensiva por parte da equipa sul-americana, que avança agora para os oitavos de final na Filadélfia.
Uma fortaleza tática: como o Paraguai de Alfaro sufocou a Alemanha
Gustavo Alfaro, o argentino de 63 anos à frente do Paraguai, chegou a este Mundial com uma filosofia clara: futebol defensivo profundo e sufocante assente na disciplina coletiva. A sua equipa instalou-se num rígido esquema 4-5-1 que ocasionalmente se transformava num 4-6-0, sem deixar espaços para a Alemanha explorar. O resultado foi uma primeira parte tão desprovida de ameaça ofensiva por parte da equipa europeia que até a pausa de hidratação pareceu o momento mais animado dos primeiros 45 minutos.
Alfaro falou publicamente durante este torneio sobre a responsabilidade do futebol em representar as pessoas comuns e em desafiar o establishment do desporto. Em campo, a sua equipa encarnou esse espírito — ultrapassada em esforço, em desvantagem na posse de bola, mas completamente inabalável. Ao intervalo, a Alemanha tinha controlado 79% da bola e completado 308 passes contra os 55 do Paraguai, mas estava a perder por um golo.
O estádio em si — um vasto campus com amplas bancadas superiores e uma grandiosidade de outros tempos — estava lotado ao apito inicial, a assar sob o violento sol da tarde. A atmosfera foi animada no início, embora o jogo rapidamente se acomodasse nos padrões sufocantes que Alfaro havia desenhado. Ao minuto seis, a primeira ola já percorria as bancadas — um sinal revelador do que estava por vir.
O improvável cabeceamento de Enciso abre o marcador
O golo surgiu de uma fonte inesperada. Julio Enciso, com apenas 1,68 m de altura e classificado como o 17.º jogador mais baixo deste Mundial, produziu um poderoso cabeceamento para colocar o Paraguai na frente. A jogada começou com um canto de Miguel Almirón, que Manuel Neuer afastou com os punhos. A bola voltou a Almirón, que realizou um passe preciso em reverso para a corrida de Matías Galarza pelo exterior. O cruzamento de Galarza foi duro, rasteiro e perfeitamente medido, encontrando Enciso num bolso de espaço surpreendentemente aberto — um contraste chocante com a densidade sufocante que havia definido o resto do jogo.
O golo deixou a Alemanha atónita, que havia dominado todas as estatísticas mas se encontrava em desvantagem. A equipa de Nagelsmann tinha pressionado e insistido sem descanso contra aquela barricada paraguaia reforçada, mas a eficácia clínica dos sul-americanos no seu único momento de perigo real revelou-se decisiva na primeira parte. Ao intervalo, os jogadores alemães saíram de campo com ar desconcertado, tendo sido ultrapassados no marcador por uma equipa que dominavam na posse numa proporção de quase quatro para um.
A resposta alemã e a ligação Wirtz-Havertz
Leon Goretzka substituiu Felix Nmecha ao intervalo, e a Alemanha entrou em campo com maior determinação no meio-campo. O empate chegou aos 54 minutos através de um momento de genuína qualidade: Florian Wirtz deslocou-se para o flanco esquerdo, cortou para dentro e lançou um cruzamento diagonal para a área. Kai Havertz rematou com um elegante cabeceamento em pirueta que encontrou o canto — um golo que muito deveu à cumplicidade forjada na Premier League entre os dois jogadores.
Com o jogo empatado, Jamal Musiala entrou em campo aos 63 minutos em lugar de Denis Undav, que havia passado o seu tempo em campo a alcançar uma invisibilidade quase total apesar de estar rodeado de outros 21 jogadores num palco global. O jogo voltou aos seus ritmos cautelosos, embora Wirtz e Havertz se tenham combinado novamente aos 75 minutos de forma quase idêntica, apenas para que Orlando Gill realizasse uma excelente defesa de perto que manteve o Paraguai no jogo.
Prolongamento, drama do VAR e o caminho para as grandes penalidades
Com dois minutos de tempo regulamentar por disputar, Nick Woltemade foi introduzido como opção ofensiva tardia, embora a sua contribuição não tenha ido além de uma deambulação sem rumo nos últimos instantes. O prolongamento chegou com a inevitabilidade de uma conclusão anunciada, trazendo consigo mais posse para a Alemanha, mais faltas táticas do Paraguai e muito poucas oportunidades claras para qualquer uma das equipas.
O mais perto que a Alemanha esteve de um golo foi um cabeceamento ao segundo poste de Jonathan Tah aos 103 minutos que parecia ter resolvido o encontro — até que uma revisão do VAR o anulou. Waldemar Anton havia cometido falta sobre o guarda-redes quando a bola entrou, e o golo foi invalidado. O Paraguai havia-se defendido até ao limite das suas forças, recuando tão profundamente que praticamente se posicionava atrás da sua própria linha de golo — mas aguentou.
A série de grandes penalidades: o colapso alemão
A série que se seguiu foi um espetáculo de infortúnio alemão. Kai Havertz foi o primeiro a rematar e, após uma longa espera, produziu um remate fraco e telegrafado que foi comodamente defendido. Woltemade seguiu-se com uma tentativa igualmente pouco convincente, também defendida. Jonathan Tah enviou o seu remate muito acima da barra, completando um trio de falhanços que selou o destino da Alemanha.
O Paraguai, pelo contrário, executou as suas grandes penalidades com compostura e precisão. Antonio Sanabria falhou uma, e a de Fabián Balbuena foi defendida enquanto Neuer recuperava brevemente a sua aura — mas não foi suficiente para alterar o resultado. José Canale desferiu o golpe decisivo, enviando o Paraguai para os oitavos de final e encerrando a campanha da Alemanha no Mundial da forma mais dolorosa imaginável.
Epílogo: o Paraguai celebra, a Alemanha reflete
O banco paraguaio invadiu o relvado ao apito final, celebrando o que o seu treinador e jogadores considerarão com razão o maior resultado da sua história futebolística. A exibição combinou coração, inteligência tática e uma resistência defensiva extraordinária ao longo de 120 minutos de futebol extenuante. Seis remates enquadrados em todo o jogo contaram a história de um encontro definido não pelo brilhantismo ofensivo, mas pelo desgaste e pelos nervos.
Para Julian Nagelsmann, a derrota na Nova Inglaterra poderá marcar o fim do seu mandato. Foi noticiado que Jürgen Klopp, que passou o torneio a comentar a partir de um estúdio de televisão — criticando alegremente Nagelsmann e depois pedindo desculpa por isso — poderá encontrar-se em liza para o cargo mais cedo do que o esperado. O Paraguai, entretanto, viaja para a Filadélfia com uma história para contar e a convicção de que tudo é possível.

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