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A revolução futebolística de Marrocos: construindo uma nova potência dentro e fora de campo

Mason Hart
Mason Hart
Publicado: 09.07.2026 Atualizado: 15.09.2026

Poucos países transformaram sua sorte futebolística de forma tão drástica quanto Marrocos nos últimos anos, e quem conhece o processo por dentro garante que essa mudança não é acaso. Nos bastidores, uma estratégia deliberada, conduzida de cima para baixo, está transformando os Leões do Atlas em verdadeiros candidatos ao título mundial, com apoio real, uma vasta rede de observação de talentos e uma nova geração de treinadores formados no país.

O apoio real impulsiona um renascimento futebolístico

O galês Neil Ward deixou o cargo de diretor executivo da Football Association of Wales Trust em 2020 para se tornar diretor de operações técnicas na Federação Real Marroquina de Futebol. Dois anos depois, ele estava em Rabat quando Marrocos se tornou a primeira seleção africana a chegar a uma semifinal de Copa do Mundo, e lembra como as celebrações tomaram as ruas até altas horas da madrugada, com o próprio monarca participando da festa. A França encerrou aquela caminhada, e as duas seleções voltam a se enfrentar na quinta-feira, agora com uma vaga nas quartas de final em jogo.

Seu compatriota Simon Jennings, que passou quatro anos supervisionando o desenvolvimento das categorias de base no país enquanto também ajudava a implementar as licenças de treinador da Uefa, insiste que nada disso aconteceu por acidente. Ele descreve o processo como resultado de uma estratégia nacional deliberada e de longo prazo, conduzida tanto pela cúpula do futebol marroquino quanto pelo governo do país.

Essa ambição fica evidente no volume de recursos direcionados ao esporte sob o patrocínio do rei Mohammed VI. Um centro de treinamento de última geração, uma academia nacional, núcleos regionais e milhares de novos campos amadores foram financiados como parte desse esforço, além de reformas em estádios. Ward destaca que instalações de elite nesse padrão enviam um sinal claro aos jogadores que atuam na Europa sobre a seriedade do projeto.

Nem todos receberam bem a escala dos gastos. Manifestantes mais jovens pediram que mais recursos fossem destinados a escolas, hospitais, moradia e criação de empregos, levando o palácio real a comprometer cerca de £11,2 bilhões para saúde e educação no orçamento de 2026 — um aumento de 16% em relação ao ano anterior. Para Ward, o investimento no futebol serve, na prática, a um propósito mais amplo: provar que Marrocos pode competir no cenário mundial e, com isso, ganhar influência de poder brando internacionalmente.

A observação da diáspora se torna uma arma competitiva

A cultura futebolística marroquina sempre foi profunda, mas uma mudança de mentalidade em torno da Copa do Mundo de 2022 ajudou a liberar todo esse potencial. Antes daquele torneio, o país havia avançado às fases eliminatórias apenas uma vez, em 1986. O ex-treinador Walid Regragui deixou claro, antes mesmo da bola rolar no Catar, que seu elenco não estava ali apenas para completar a fase de grupos — o objetivo era fazer história.

Boa parte dessa ambição se apoia no aproveitamento de uma enorme diáspora, já que o ministério das relações exteriores do país estima que mais de cinco milhões de marroquinos vivem no exterior. Hoje, olheiros em tempo integral atuam na França, Holanda, Espanha, Alemanha, Noruega, Suécia e Dinamarca com o propósito específico de identificar precocemente jovens talentos elegíveis. Jennings observa que esses jogadores não são tratados como uma opção secundária; pelo contrário, são plenamente integrados à seleção nacional como marroquinos de coração, com um orgulho genuíno por essa identidade, em vez de encará-la como uma nacionalidade de segunda categoria.

Os números comprovam isso. Dezenove dos 26 jogadores da atual convocação marroquina para a Copa do Mundo nasceram fora do país, e seis deles — incluindo o meio-campista do Lille Ayyoub Bouaddi, muito valorizado — também poderiam ter representado a França, adversária nas quartas de final. Bouaddi passou por todas as categorias de base francesas, mas sempre manteve um forte vínculo com suas raízes marroquinas. A jovem promessa espanhola Lamine Yamal, cujo pai é marroquino, também foi alvo de aproximação, com dirigentes da federação se reunindo com ele e sua família. Ward afirma que essa abordagem não deixa nada ao acaso, lembrando que Yamal já estava no radar de Marrocos quando tinha apenas 12 ou 13 anos e despontava como promessa no Barcelona.

Transformando o investimento na base em sucesso na seleção principal

Chris van Puyvelde, diretor técnico da federação entre 2022 e 2025, afirma que o próximo objetivo é alcançar um equilíbrio aproximado entre jogadores formados dentro de Marrocos e aqueles criados no exterior até a próxima Copa do Mundo. Ele adverte, porém, que a infraestrutura futebolística geral do país ainda precisa de melhorias significativas para sustentar essa ambição.

Equilibrar paciência com a pressão por resultados imediatos nem sempre foi simples. O atual treinador da seleção principal, Mohamed Ouahbi, sentiu essa tensão de perto quando sua equipe sub-20 não conseguiu se qualificar para a Copa Africana de Nações em 2023. Com tempo e apoio contínuo, no entanto, o treinador nascido na Bélgica conduziu essa mesma categoria à conquista da Copa do Mundo Sub-20 em 2025.

Poucos meses depois, Ouahbi foi promovido ao comando da seleção principal, após a saída de Regragui na sequência de uma campanha decepcionante na Copa Africana de Nações de 2025. Apesar da necessidade de se reorganizar rapidamente antes da Copa do Mundo, a federação demonstrou confiança de longo prazo nele, vinculando-o ao cargo até a edição de 2030.

Olhos já voltados para o horizonte de 2030

Com Marrocos programado para coabrigar a Copa do Mundo de 2030 junto com Portugal e Espanha, a sensação é de que isso é apenas o começo. Van Puyvelde descreve um esforço duplo: novos estádios sendo erguidos ao mesmo tempo em que a estrutura futebolística é reconstruída de baixo para cima.

Ele compara o momento atual à chegada de oxigênio a um sistema: assim que Marrocos provou o sabor do sucesso no Catar, essa energia começou a se espalhar rapidamente por todos os cantos do país, alimentando ambições que vão muito além de um único torneio.

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